quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Anvisa investiga 13 notificações de doença que causa perda de visão associadas a canetas emagrecedoras

Publicado em setembro 27, 2026 Por admin

A Anvisa investiga 13 notificações de suspeita de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (Noia), lesão rara no nervo óptico que pode causar a perda permanente da visão, em pacientes que usavam medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1, indicados para diabetes e obesidade.

A doença funciona como um infarto no nervo que liga o olho ao cérebro. Os pequenos vasos que o irrigam entopem, parte das células nervosas morre e a visão de um dos olhos piora de repente, muitas vezes sem recuperação completa.

  • De acordo com um levantamento feito a pedido do g1, as notificações são de casos envolvendo pacientes que usavam Ozempic, Wegovy, Rybelsus e Mounjaro.

Ao g1, a Novo Nordisk afirma que uma análise de seus próprios ensaios clínicos não mostrou aumento de casos da doença com a semaglutida e que o balanço entre benefícios e riscos segue favorável. A Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, diz que monitora os dados de segurança de seus remédios, incluindo questões oftalmológicas. (Leia as notas completas abaixo)

Os casos ainda são tratados como suspeitos e estão sendo acompanhados pela Anvisa. De acordo com a agência, a presença do remédio e da doença na mesma notificação não comprova que um tenha causado o outro.

Anvisa investiga 13 notificações de casos de doença que causa perda de visão associada à canetas  — Foto: Pexels

Anvisa investiga 13 notificações de casos de doença que causa perda de visão associada à canetas — Foto: Pexels

O tema veio à tona nesta semana, quando um grupo de pacientes nos Estados Unidos processou a Novo Nordisk pelo risco de perda de visão, causada pela NOIA. Os processos foram revelados por uma reportagem do The Wall Street Journal.

No entanto, os próprios pesquisadores disseram que a observação era limitada para estabelecer relação de causa e efeito. Isso porque esses pacientes também tinham doenças que podem causar a doença, como a diabetes.

Ainda assim, no Brasil, desde junho de 2025, por determinação da Anvisa, a NOIA consta na bula dos medicamentos com semaglutida como reação adversa muito rara.

➡️ E você pode se perguntar: esse é então um motivo para suspender o tratamento? Para especialistas ouvidos pelo g1, quem usa as canetas para tratar obesidade, diabetes ou hipertensão segue tendo mais a ganhar do que a perder.

Mas é um alerta de quão importantes são o acompanhamento e a indicação médica e de quão responsável precisa ser o uso desses medicamentos, que ganharam apelo estético.

Todo remédio tem pequenos riscos e o benefício tem que ser maior do que o risco. Então, se alguém vai tomar esse remédio sem necessidade, só por vaidade, talvez não deva tomar.
— Rubens Belfort Neto, oftalmologista, doutor e pós-doutor pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

O que mostram as notificações no Brasil?

As 13 notificações ligadas às canetas fazem parte de um conjunto maior. Desde 2018, o painel de farmacovigilância da Anvisa registrou 24 suspeitas de neuropatia isquêmica óptica, termo que agrupa esses casos no sistema. As demais envolvem outras classes de remédios, como imunomoduladores, medicamentos contra o câncer, outros antidiabéticos e remédios de uso oftalmológico.

➡️ Entre os agonistas de GLP-1, as notificações citam:

  • Ozempic: 5 notificações
  • Wegovy: 3 notificações
  • Wegovy FlexTouch: 2 notificações
  • Rybelsus: 2 notificações
  • Mounjaro: 1 notificação

Apesar de serem 13 notificações, a Anvisa informou que os casos podem se somar entre os medicamentos. As notificações no sistema são separadas entre 12 de semaglutida e uma para tirzepatida.

Os dados estão no painel de farmacovigilância da Anvisa, que recebe as notificações de casos a partir de relatos de casos de pacientes, médicos e das próprias farmacêuticas.

Após as notificações, os casos são investigados para entender a relação com as medicações. Até aqui, segundo a agência, todos eles são tratados como suspeitos.

E o que esses pacientes apresentaram? A Noia é uma lesão no nervo que leva as imagens do olho até o cérebro. Ela acontece quando os pequenos vasos que irrigam a parte da frente desse nervo entopem, num processo semelhante ao de um infarto.

Entre os usuários de canetas, um dos pontos que dificultam a avaliação da consequência é a existência de doenças preexistentes, como a diabetes. A doença danifica o endotélio, camada de células que reveste os vasos por dentro, e deixa o nervo mais vulnerável à falta de sangue, o mesmo processo por trás das lesões na retina, nos rins e nos pés de pacientes diabéticos.

“Essa é uma doença rara, mas que a gente tem em alguns pacientes com doenças preexistentes como é o caso da diabetes. Esse tipo de paciente já tem a doença atacando seus vasos, trazendo mais risco. Com isso, fica difícil saber se esse paciente já teria a doença pelo quadro dele ou se ele tem porque está usando o medicamento”, explica o oftalmologista Rubens Belfort Neto.

Além da neuropatia, o painel reúne 74 registros de outras complicações visuais em usuários dessas canetas. Os relatos aparecem em pacientes que usavam Rybelsus (22), Wegovy (19), Mounjaro (17) e Ozempic (16).

A queixa mais frequente é a visão turva, com 37 registros, seguida por comprometimento visual, com 29. Há ainda casos de redução da acuidade visual, perda de visão central, perda súbita da visão e defeito no campo visual. Como uma notificação pode descrever mais de um sintoma, os registros não correspondem ao número de pacientes.

Quem usa a caneta deve parar?

Para Belfort Neto, nada do que se sabe até agora justifica suspender o tratamento de quem tem indicação médica. Segundo ele, o aumento de risco sugerido pelos estudos é pequeno, e obesidade, diabetes e pressão alta são ameaças comprovadas à saúde.

No país, sociedades médicas recomendam que quem já teve a doença ou apresenta perda súbita ou recente da visão suspenda o medicamento.

Além disso, pedem que pacientes com diabetes que fazem o tratamento passem por exames de retina periódicos.

De acordo com as sociedades médicas e com especialistas, o caso é um alerta para quem faz uso indiscriminado.

“É nesse grupo que a conta entre risco e benefício deixa de fechar: quem não tem uma doença a tratar assume os efeitos adversos do remédio, ainda que raros, sem ganho equivalente para a saúde”, explica o médico oftalmologista Rubens Belfort Neto.

O que dizem as empresas

  • O que diz a Novo Nordisk

A semaglutida foi estudada em múltiplos programas de desenvolvimento clínico robustos, com uma exposição total proveniente do uso pós-comercialização de mais de 49 milhões de pacientes/ano.

A semaglutida comprovou uma ampla gama de benefícios além do controle glicêmico e da perda de peso para pessoas com doenças cardiometabólicas. Considerando a totalidade das evidências de ensaios clínicos, relatos pós-comercialização e estudos observacionais, juntamente com a taxa de incidência geralmente baixa de NAION, a Novo Nordisk entende que o perfil de benefício-risco da semaglutida permanece favorável.

A segurança do paciente é uma prioridade máxima para a Novo Nordisk, e consideramos todos os relatos de eventos adversos associados aos nossos medicamentos, colaborando estreitamente com autoridades de saúde e órgãos reguladores em todo o mundo.

  • O que diz a Eli Lilly

A segurança dos pacientes é a principal prioridade da Lilly. Monitoramos, avaliamos e reportamos ativamente às autoridades regulatórias as informações de segurança relacionadas a todos os nossos medicamentos. Como parte do nosso processo rotineiro de revisão de segurança, mantemos discussões contínuas com as autoridades regulatórias sobre possíveis temas de segurança e continuaremos avaliando os dados, incluindo quaisquer informações relacionadas a questões oftalmológicas. Se alguém apresentar efeitos colaterais ao utilizar um medicamento da Lilly, deve conversar com seu médico ou outro profissional de saúde.